11 coisas que eu aprendi nesses 11 anos como psicóloga

foto da formatura - Rebeca Porto

Parece que foi ontem que eu entrei no curso de Psicologia. Mas a verdade é que faz 11 anos que eu saí de lá, psicóloga.

Quando eu paro para pensar, parece muito tempo. Ao mesmo tempo, parece que foi ontem que eu estava ali, de beca, esperando o reitor colocar aquele chapéu na minha cabeça e colando grau.

Onze anos… É tempo suficiente para mudar de ideia algumas vezes, descobrir que você não sabe tanta coisa quanto imaginava, aprender outras tantas que ninguém ensinou na faculdade e perceber que algumas certezas que pareciam absolutas eram só… certezas de uma Rebeca mais nova (tô me sentindo muito madura escrevendo isso kkkk).

E talvez porque hoje eu também esteja do outro lado da sala, como professora, eu fiquei pensando em algumas coisas que gostaria que meus alunos, futuros psicólogos, soubessem. Mas pensando bem, talvez elas não sejam só para eles. São coisas que eu fui aprendendo ao longo desses 11 anos e que, se alguém tivesse me contado lá atrás, talvez tivessem me poupado alguns sufocos.

PS: Eu coloquei talvez porque tem coisa que a gente só aprende quebrando a cara mesmo.

Então, vamos lá.

1. Eu aprendi que a faculdade não ensina tudo. E ainda bem.

Durante a graduação, eu tinha uma sensação de que, em algum momento, finalmente saberia o suficiente, Hahaha, que ingênua…

Pois é… não aconteceu…

E talvez nunca aconteça. A gente sai da faculdade com uma base. Depois aprende no estágio, na supervisão, nos cursos, nos livros, nos pacientes, nos colegas, nos erros, nos acertos e naquela maravilhosa situação de abrir um artigo às 23h porque amanhã você precisa entender alguma coisa que você jurava que sabia.

Então, mais importante do que tentar saber tudo é aprender como encontrar o que você ainda não sabe. Isso me acompanha até hoje (e muito).

2. Eu aprendi que perguntar é uma das melhores coisas que um profissional pode fazer.

Sabe aquela dúvida que você acha tão boba que prefere ficar quieto? Pois é. Provavelmente alguém está com a mesma dúvida. E se não estiver, paciência. Pergunta mesmo assim.

Eu já fiz perguntas que depois pensei: “Meu Deus, como eu não sabia disso?” E já ouvi perguntas que me fizeram pensar em coisas que eu nunca tinha pensado daquele jeito.

Aliás, uma coisa que a Psicologia me ensinou (e a propaganda do canal futura tbm) foi a gostar de perguntas. Porque, às vezes, a gente está tão preocupada em encontrar a resposta certa que esquece de perguntar se está fazendo a pergunta certa.

3. Eu aprendi que responsabilidade não significa carregar tudo.

Essa foi uma das mais difíceis. Porque existe uma diferença enorme entre ser responsável e se responsabilizar por tudo.

Você pode ajudar o colega que está apertado. Pode acolher alguém que precisa. Pode assumir uma tarefa quando necessário. Mas, se toda vez que alguém não dá conta você corre para resolver, uma hora você percebe que está carregando coisas que nem eram suas.

E isso vale para o trabalho, para a família, para a faculdade, para o casamento…

Aliás, quantas mulheres eu já vi fazendo isso? Resolvem tudo. Lembram de tudo. Antecipam tudo. E depois estão exaustas, ressentidas e pensando: “Por que ninguém me ajuda?”

Às vezes a pergunta também precisa ser: “Eu estou deixando alguém ajudar?”

4. Eu aprendi que ser competente não é dar conta de tudo.

Essa eu gostaria de ter aprendido mais cedo.

Porque a gente costuma elogiar muito quem “dá conta”. Aquela pessoa que trabalha, estuda, cuida dos filhos, resolve a casa, ajuda os outros, responde mensagem, faz academia e ainda aparece sorrindo na segunda-feira: “Essa mulher é uma máquina!”

Pois é…

Mas talvez ela só esteja cansada pra caramba.

Competência não é capacidade infinita. Você pode ser excelente no que faz e ainda precisar parar. Pode ser uma ótima psicóloga e precisar de supervisão. Pode ser uma ótima professora e chegar em casa sem querer olhar para mais uma tela. Pode amar sua família e precisar de algumas horas sem ninguém te chamando.

Dar conta de tudo não deveria ser o nosso principal indicador de sucesso.

5. Eu aprendi que dizer não também é uma forma de cuidar.

E não, o fato de eu ter aprendido não quer dizer que eu consiga fazer sempre… Ainda estou praticando.

Mas aprendi que toda vez que você diz “sim” automaticamente, alguma outra coisa está pagando a conta. Seu tempo. Seu descanso. Seu trabalho. Sua família. Você.

E nem todo pedido merece um sim. Nem todo problema precisa ser resolvido por você. Nem toda oportunidade precisa ser aproveitada. Nem todo mundo precisa ter acesso irrestrito ao seu tempo.

Às vezes, um “não posso” é só um “não posso”. Sem textão. Sem justificativa de três parágrafos. Sem pedir desculpas por existir.

6. Eu aprendi que ajudar alguém não significa fazer por ela.

Essa aqui serve para quase tudo.

Na faculdade, você faz o trabalho do colega porque ele está no sufoco. No trabalho, você pega uma tarefa porque “é mais rápido se eu fizer”. Em casa, você prefere fazer porque “se eu esperar, ninguém faz direito”. Na vida, você vai resolvendo, resolvendo, resolvendo…

E quando percebe, todo mundo aprendeu que pode deixar para você. A intenção era ajudar. O resultado foi outra coisa.

E isso vale até para a Psicologia. A gente não está ali para viver a vida do outro por ele. Está para ajudá-lo a construir condições para viver a própria vida.

7. Eu aprendi que algumas escolhas só ficam claras depois que a gente experimenta.

Eu queria muito ter entendido isso aos 20 e poucos.

A gente acha que precisa descobrir logo: “Qual área eu vou seguir?”, “Com qual público vou trabalhar?”, “Vou fazer clínica?”, “Vou para RH?”, “Vou para hospital?”, “Vou fazer mestrado?”, “E se eu escolher errado?”

Minha filha…

vai viver primeiro…

Conheça áreas. Faça coisas. Mude de ideia… Seja uma metamorfose ambulante!

Uma escolha profissional não precisa ser uma sentença de prisão perpétua.

E, se você perceber que aquele caminho não faz mais sentido, isso não significa que os anos anteriores foram desperdiçados. Eles fizeram parte da construção de quem você é.

8. Eu aprendi que a vida não pode ser organizada inteira em torno do trabalho.

Essa aqui eu queria colocar em letras garrafais.

Porque trabalhar é importante. Muito.

A carreira pode trazer realização, dinheiro, identidade, autonomia, orgulho, propósito.

Mas ela é uma parte da vida.

Não a vida inteira.

Eu já vi muita gente construir uma carreira incrível e, quando finalmente consegue parar, perceber que não sabe mais o que fazer consigo mesma.

E aí vem aquela pergunta assustadora: “Quem sou eu quando não estou trabalhando?”

Talvez seja importante não esperar chegar lá para descobrir.

Tenha vida fora do trabalho. Tenha amigos. Tenha hobbies. Assista a um dorama sem tentar analisar o comportamento dos personagens. Tenha coisas que não servem para nada além de fazer você feliz.

9. Eu aprendi que algumas coisas precisam ser feitas mesmo sem estarem perfeitas.

Isso vale para uma prova. Para um projeto. Para uma aula. Para um post. Para começar uma nova carreira. Para dizer alguma coisa que você está engasgado há meses. Para aquele currículo que você nunca envia porque ainda não está “bom o suficiente”.

O perfeccionismo tem uma habilidade impressionante de parecer responsabilidade. Mas, às vezes, ele é só medo usando roupa social. Nem tudo precisa estar perfeito para começar, às vezes você precisa começar para descobrir como melhorar.

10. Eu aprendi que não existe uma idade certa para descobrir que alguma coisa não faz mais sentido.

A vida muda. A gente muda. Os valores mudam. As prioridades mudam. E aquela coisa que fazia sentido aos 25 pode não fazer mais aos 35. Ou aos 40. Ou aos 50. E tudo bem.

Eu acho curioso como a gente trata algumas escolhas como se fossem contratos vitalícios.

“Mas você estudou isso!”

“Mas você sempre trabalhou com isso!”

“Mas você era tão boa nisso!”

Tá.

E daí?

Ser boa em alguma coisa não significa que você é obrigada a continuar fazendo aquilo para sempre.

Às vezes, mudar de caminho não é jogar a vida fora. É justamente começar a construir uma vida que faça mais sentido para quem você se tornou.

11. Eu aprendi que cuidar da pessoa é tão importante quanto construir o profissional.

Talvez esse seja o aprendizado que junta todos os outros.

Porque, no fim das contas, antes de ser psicóloga, professora, especialista, profissional, dona de uma carreira ou qualquer outra coisa, eu sou uma pessoa.

E vocês também.

A gente passa tanto tempo tentando construir um currículo bonito que, às vezes, esquece de construir uma vida que a gente goste de viver.

E não adianta ter uma agenda cheia se você não tem espaço para respirar. Não adianta ser reconhecida profissionalmente se você está sempre exausta. Não adianta dar conta de todo mundo se, quando chega a sua vez, você não sabe mais nem o que quer.

Não adianta construir uma carreira que parece perfeita por fora se, por dentro, você está pensando: “Eu não quero mais viver assim.”

Talvez sucesso também tenha a ver com isso: conseguir construir uma vida em que você caiba.

Onze anos depois daquele dia da formatura, eu continuo aprendendo. Ainda faço perguntas. Ainda mudo de ideia. Ainda descubro coisas que não sabia. Ainda tenho dias em que dou uma pequena surtada porque aparentemente a vida adulta não vem com manual de instruções.

Mas talvez eu tenha aprendido justamente isso: a gente não precisa ter todas as respostas para continuar caminhando.

E talvez esse seja o meu conselho número 12, mesmo que eu tenha prometido 11:

Não tenha tanta pressa de chegar.

Tem muita coisa boa acontecendo no caminho.

E, por favor, não construa uma vida tão ocupada tentando dar conta de tudo que você esqueça de viver.

🤎

11 anos de Psicologia.

E ainda tem muita coisa que eu quero aprender.